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✨ Sobre amor, morte e a ilusão de não se preocupar

  • psigabimoreira
  • 22 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Há uma frase que circula como consolo fácil: “não deveríamos nos preocupar com o amor e a morte, pois chegam sem avisar”. À primeira vista, ela parece sábia. Fala de entrega, de aceitar o imprevisível. Mas, quando escutada com mais cuidado, revela algo inquietante: uma tentativa de nos afastar justamente daquilo que mais nos implica como humanos.

É verdade que o amor e a morte não obedecem à nossa agenda. Eles escapam ao controle, atravessam a vida sem pedir licença. Mas daí concluir que não devemos nos preocupar com eles é confundir limite com indiferença. Não controlar não é o mesmo que não se implicar.

Preocupar-se com o amor não é exigir garantias do destino. É cuidar dos vínculos, sustentar escolhas, rever modos de amar, assumir que nossos encontros não são só acaso, mas também repetição, desejo e responsabilidade. Quando digo que não me preocupo com o amor, posso estar dizendo, sem perceber, que não quero me comprometer com o trabalho que ele exige.

E quanto à morte, pensar nela não é flertar com a morbidez. É reconhecer a finitude que dá peso e valor a cada gesto. A morte talvez não avise o dia, mas a vida avisa o tempo todo que é frágil. Evitar esse pensamento não nos torna mais leves apenas mais distraídos do essencial.

Talvez essa frase funcione como defesa: “já que não posso saber, é melhor não pensar”. Mas o que não é pensado não desaparece; retorna como angústia difusa, pressa de viver, medo de perder, ou adiamento do que importa. Não se preocupar pode ser só outra forma de não querer sentir.

Amor e morte são, justamente, aquilo que nos convoca a viver com mais verdade. Eles nos lembram que não somos senhores do tempo, mas somos responsáveis pelo modo como habitamos cada encontro e cada despedida. Ignorá-los em nome de uma falsa tranquilidade é perder a chance de dar sentido ao que se vive.

Talvez, então, o mais honesto não seja dizer que não devemos nos preocupar, mas reconhecer: não controlamos quando o amor vem, nem quando a morte chega, mas podemos escolher amar com presença e viver de modo que, quando a finitude se impuser, a vida não tenha sido apenas esperada, mas tenha sido, de fato, vivida.


Gabi Moreira - 22/12/2025

 
 
 

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